julho 05, 2012

[Segurança] A difícil relação entre eventos e palestrantes

Nesta semana o Gustavo Lima escreveu um post em seu blog aonde ele fez um questionamento válido: "Porque vemos sempre os mesmos nomes nas grades de palestras dos eventos de segurança no Brasil?"

No fundo ele tem razão em questionar. Se olharmos a grade da maioria dos eventos de Segurança nos últimos anos, vários palestrantes se repetem, inclusive os que ele citou em seu post. Inclusive eu mesmo - que só fui poupado de aparecer na lista de "figurinhas carimbadas" do Gustavo porque ele tirou esta lista da próxima edição do SegInfo, e até o momento eu não recebi resposta da proposta de palestra que enviei para o CFP deles.

Mas o Gustavo também pergunta: "Mas cadê o resto do povo, não tem mais ninguém que pesquise, que trabalhe na área? Será que temos de fato uma “panela” em SI ?"



Eu escrevi uma resposta no blog dele, mas gostaria de repetir ela aqui pois acredito que esta discussão é válida. Eu concordo com as observações do Gustavo sobre a quantidade de “figurinhas carimbadas” (ou melhor: "figurinhas repetidas") nos eventos, mas no meu entender a resposta para este problema é bem complexa e é resultado de vários aspectos que influenciam este cenário simultaneamente. Por isso não considero correto nem justo culpar simplesmente a existência de uma "panelinha".

Eu vejo os seguintes problemas, que afetam a grande maioria dos eventos brasileiros:
  1. Palestras de patrocinadores: Sim, vários eventos oferecem oportunidade de palestra para os patrocinadores, e por isso vemos alguns palestrantes que só estão lá porque a empresa pagou por isso. Isso acontece porque os patrocinadores, na prática, são quem pagam a conta do evento, pois fazer um evento bom sai caro, muito caro. E nenhuma empresa faz nada de graça: os patrocinadores querem ser vistos e querem divulgar seus produtos para conseguir novos clientes - simples assim. E o benefício que os patrocinadores mais gostam é, justamente, poderem palestrar sobre si mesmos. Uma palestra de patrocinador não precisaria ser algo negativo, se ele aproveitasse a oportunidade para mostrar um novo conceito, uma nova linha de pesquisa da sua empresa, em vez de ficar vomitando material de marketing ou divulgar estatísticas de uma pesquisa sem graça que a empresa fez. Pena que nem todas as empresas sabem usar esta oportunidade para encantar a platéia. Nota: Alguns eventos condicionam a aceitação da palestra do patrocinador a um OK da comissão que analisa o CFP, para tentar forçar as empresas a trazerem conteúdo interessante.
  2. Falta bons palestrantes no Brasil. Pouca gente aqui no Brasil produz pesquisa interessante - ou melhor: simplesmente temos poucos pesquisadores no Brasil pois o nosso mercado não valoriza a pesquisa. Além disso, há outros fatores que contribuem para a falta de palestrantes: pouca gente acha que tem conhecimento que pode ser legal apresentar em um evento (e, na minha opinião, muitas vezes este pessoal está errado: ele/ela poderia falar algo interessante para muitas pessoas sobre seu trabalho ou algo que tem pesquisado), poucas empresas valorizam isto e motivam seus funcionários a apresentarem em eventos, vários profissionais precisam obter aprovação de sua empresa para palestrar (o que pode ser um processo burocrático e, as vezes, intransponível), e pouca gente tem vontade e/ou coragem de enfrentar uma platéia. Afinal das contas, é preciso uma grande dose de desenvoltura para encarar uma platéia sem gaguejar e lidar com inprevistos como enrolar a língua no meio da frase, se confundir em um determinado momento ou, eventualmente, até mesmo cair do palco e continuar a apresentação como se nada tivesse acontecido (não que nada disto nunca tenha acontecido comigo...).
  3. Panela. Sim, há um pouco de panelinha entre os eventos e palestrantes. Mas é um mal necessário, mesmo que o organizador não queira, pois a verdade aqui no Brasil é uma só: a maioria dos eventos recebem pouca resposta das chamadas de trabalho (CFP) abertas ao público e, na maioria das vezes, o evento não recebe propostas suficientes para encher a grade de palestras. Por isso os organizadores acabam convidando alguns palestrantes conhecidos para “dar uma forcinha”. Isto aconteceu com as três edições da Co0L BSides que eu já organizei: não recebemos propostas de palestras suficientes e tivemos que convidar alguns conhecidos. Será que o evento não chamou a atenção das pessoas ou não há pessoas suficientes interessadas ou em condições de palestrar nos eventos?
  4. Experiência dos palestrantes conhecidos. Há uma preferência por palestrantes já experientes, pois o organizador do evento também tem interesse em oferecer boas palestras e, ao mesmo tempo, tem receio de trazer um palestrante desconhecido que, na hora H, pode correr o risco de apresentar uma palestra com assunto que não agrade o público, ou que não tenha boa capacidade de apresentar. Por isto, os eventos convidam palestrantes experientes para garantir que terá alguns palestrantes capazes de trazer conteúdo bom e que o público goste. Além do mais, um palestrante experiente também representa alguém que tem interesse e disponibilidade de palestrar. E, para o palestrante, isto vira uma bola de neve: quanto mais você palestra, mais convites recebe.
  5. Palestrantes que atraem o público. Convidar um palestrante conhecido, respeitado, com carisma e/ou com assuntos muito interessantes (ou muito avançados) atrai público. E todo evento se preocupa em construir uma grade de palestras e de speakers que seja capaz de atrair o público, senão ninguém vai e o evento fracassa.

Pelos motivos expostos acima, acredito que poucos eventos brasileiros conseguem escapar de um ou mais destes problemas: atrair patrocinador sem prejudicar a grade de palestras, atrair novos palestrantes e temas interessantes, e encher a grade só com as respostas do CFP, não precisando chamar palestrantes conhecidos e experientes. Talvez o ideal, na minha opinião, é justamente tentar achar um meio-termo entre todos estes cenários.

Soluções? Na minha opinião o pessoal que organiza os eventos e os palestrantes mais experientes tem que assumir a responsabilidade de motivar o pessoal a começar a palestrar e atrair novos palestrantes, pois ficar sentado esperando os palestrantes aparecerem não tem funcionado, pelo menos aqui no Brasil. Um exemplo que vi recentemente e que gostei muito foi da BSides Las Vegas deste ano, que criou o que chamaram de "BSidesLV Mentorship Program": eles criaram uma trilha exclusiva somente para palestrantes novatos, que inclui uns “mentores” para ajudarem o pessoal a criar e apresentar seu material. Eu achei a idéia sensacional, mas tenho receio de que aqui no Brasil a platéia iria evitar esta trilha. De qualquer forma, a idéia me parece sensacional e merece ser tentada.

3 comentários:

Felipe Perin disse...

Concordo com o artigo e vejo essa dificuldade ainda maior aqui no RJ.

Adilson Santos da Rocha disse...

Olá Grande Anchises,
Concordo plenamente com esses pontos e gostaria de acrescentar, Um outro, As empresas no geral, em alguns casos tem medo de ter um funcionário seu relacionado a cena "hacker" com medo de que clientes vejam isso de forma negativa, já senti isso na pele em relação ao H2HC a algum tempo atrás, se profissionais sofrem para participar imagine para palestrar!!
Com relação ao medo também concordo, já me senti medo de enviar CFP para eventos com pensamentos tipo o "fulano, o sicrano " vai palestrar quem vai dar atenção a mim !!!

Adilson Santos da Rocha disse...

Olá Grande Anchises,
Concordo plenamente com esses pontos e gostaria de acrescentar, Um outro, As empresas no geral, em alguns casos tem medo de ter um funcionário seu relacionado a cena "hacker" com medo de que clientes vejam isso de forma negativa, já senti isso na pele em relação ao H2HC a algum tempo atrás, se profissionais sofrem para participar imagine para palestrar!!
Com relação ao medo também concordo, já me senti medo de enviar CFP para eventos com pensamentos tipo o "fulano, o sicrano " vai palestrar quem vai dar atenção a mim !!!

Creative Commons License
Disclaimer: The views expressed on this blog are my own and do not necessarily reflect the views of my employee.