maio 14, 2017

[Segurança] Perguntas e Respostas (FAQ) sobre o ransomware WannaCry

Como o meu post sobre o ransomware WannaCry está ficando grande, resolvi resumir as principais dúvidas sobre ele aqui.

O que é o WannaCry?

O WannaCry (ou Wcry, WannaCryptor, Win32/WannaCrypt) é um ransomware, um tipo de código malicioso que "sequestra" computadores para exigir um dinheiro em troca de devolver o acesso ao seu dono.  Veja um vídeo sobre o Ransonware WannaCryptor.

Como ele consegue infectar os computadoes?

O WannaCry explora uma vulnerabilidade do sistema operacional Windows, identificada como MS17-010, que permite execução remota de um código através de uma vulnerabilidade no serviço Server Message Block (SMBv1). Para explorar essa falha e invadir os computadores, o WannaCry usa um exploit chamado EternalBlue, que vazou da NSA.
Uma vez infectada a máquina, ele encripta os arquivos e mostra uma tela na qual exige um resgate de 300 dólares, a serem pagos em bitcoins em, no máximo, 7 dias (o valor do "sequestro" aumenta para US$ 600 após as primeiras 72 horas).


Os dois vídeos abaixo (um e dois) mostram o WannaCry funcionando.





Como o WannaCry se espalha?

Após infectar sua vítima, o ransomware procura outras máquinas na rede local e na Internet e utiliza o protocolo SMB para infectar estas máquinas. Para se espalhar pela Internet, ele usa um gerador de números aleatórios para criar endereços IP randômicos.

Porque ele se espalha tão rapidamente?

O WannaCry é um ransomware que se comporta como um "worm" (verme), infectando novas vítimas automaticamente, sem necessidade de intervenção do usuário. Ele procura computadores na rede e utiliza um exploit para infectar qualquer computador vulnerável que encontre.

É verdade que conseguiram parar a onda de ataques do WannaCry?

Sim. Alguns pesquisadores registraram um domínio que constava no código do malware. Ao fazer isso, perceberam que ele consulta o dominio ao infectar uma máquina e, se o malware consegue acessar o dominio, ele interrompe a infecção. Esse "kill switch" ("botão de desligar", numa tradução livre) não salva a vida de quem já está infectado e com seus dados criptografados, mas dificulta que o malware se espalhe.

Devo bloquear esse domínio que o WannaCry acessa?

NÃO!!!!! Se você bloquear (em seu Firewall, por exemplo) o domínio que o WannaCry tenta acessar (www[.]iuqerfsodp9ifjaposdfjhgosurijfaewrwergwea[.]com), você vai impedir que ele se "desligue". Ou seja, se o WannaCry estiver na sua rede e não conseguir acessar este domínio, ele vai infectar as máquinas vulneráveis.
A melhor estratégia é monitorar e alarmar toda vez que algum computador da sua rede tentar acessar este domínio: isso vai indicar que o ransomware está ativo e tentando se espalhar na sua rede.

É verdade que descobriram a senha que desencripta os arquivos?

NÃO!!!!! Alguns pesquisadores encontraram a senha "WNcry@2o17" dentro do código do WannaCrypt, mas ela não é usada para criptografar os arquivos. Ela é usada pelo ransomwae para baixar seu payload através de um arquivo Zip protegido com essa senha.
O WannaCry utiliza o algoritmo de criptografia AES para criptografar os arquivos da vítima, e usa uma chave de criptografia protegida por outra criptografa, mais forte ainda, com o algoritmo RSA e uma chave de 2048 bits.

Como Prevenir e evitar ser invadido?

Neste meu post (de 2014), eu cito algumas ações preventivas que as empresas deveriam tomar contra ransomwares. As principais recomendações são as seguintes:
  • O mais importante: mantenham seus computadores Windows atualizados. O patch está dsponível no site da Microsoft desde Março deste ano e liberou um patch emergencial para versões antigas do Wundows (Windows XP, Windows Server 2003 e Windows 8);
  • Avalie a possibilidade de desabilitar o protocolo SMB (a Microsoft recomenda fazer isso só emergencialmente);
  • Bloquear o tráfego SMB nos Firewalls de borda (que protegem a conexão com a Internet e outras redes externas). Eles devem bloquear tráfego de entrada e saída nas portas 137 e 138 UDP e as portas TCP 139 e 445;
  • Bloquear o acesso das máquinas internas de sua rede para IPs externos associados a rede TOR;
  • Manter seu antivírus atualizado;
  • Manter backup atualizado de seus dados.

O vídeo abaixo, da TrendMicro, resume um pouco como se prevenir do ataque do WannaCry.



Como descobrir que o WannaCry infectou algum computador na minha empresa?

Já foram identificados vários indicadores do ataque (IOC) que podem ser usados na rede ou nos computadores:
  • Hash (SHA256) dos códigos executáveis (esta é a lista original, pois já apareceram centenas de variações, com hashs distintos:
    • 09a46b3e1be080745a6d8d88d6b5bd351b1c7586ae0dc94d0c238ee36421cafa
    • 24d004a104d4d54034dbcffc2a4b19a11f39008a575aa614ea04703480b1022c
    • 2584e1521065e45ec3c17767c065429038fc6291c091097ea8b22c8a502c41dd
    • 2ca2d550e603d74dedda03156023135b38da3630cb014e3d00b1263358c5f00d
    • 4a468603fdcb7a2eb5770705898cf9ef37aade532a7964642ecd705a74794b79
  • Hash (MD5) dos códigos executáveis, segundo a Kaspersky (esta é a lista original, pois já apareceram centenas de variações, com hashs distintos):
    • 4fef5e34143e646dbf9907c4374276f5
    • 5bef35496fcbdbe841c82f4d1ab8b7c2
    • 775a0631fb8229b2aa3d7621427085ad
    • 7bf2b57f2a205768755c07f238fb32cc
    • 7f7ccaa16fb15eb1c7399d422f8363e8
    • 8495400f199ac77853c53b5a3f278f3e
    • 84c82835a5d21bbcf75a61706d8ab549
    • 86721e64ffbd69aa6944b9672bcabb6d
    • 8dd63adb68ef053e044a5a2f46e0d2cd
    • b0ad5902366f860f85b892867e5b1e87
    • d6114ba5f10ad67a4131ab72531f02da
    • db349b97c37d22f5ea1d1841e3c89eb4
    • e372d07207b4da75b3434584cd9f3450
    • f529f4556a5126bba499c26d67892240
  • Após infectar a máquina, o ransomware tenta acessar o seguinte website:
    • www[.]iuqerfsodp9ifjaposdfjhgosurijfaewrwergwea[.]com
    • Já foi encontrada uma variante que usa um domínio diferente:
      ifferfsodp9ifjaposdfjhgosurijfaewrwergwea[.]com
  • Para tentar se espalhar, o WannaCry escaneia IPs da rede local e IPs válidos na Internet buscando pela porta TCP/445
  • Extensão de arquivo associadas ao ransonware: .WNCRY
  • Ao se instalar, ele cria o arquivo %SystemRoot%\tasksche.exe
  • Ao se instalar, ele cria o serviço mssecsvc2.0
  • Ele cria ou altera as seguintes chaves de registro no Windows:
    • HKLM\SOFTWARE\Microsoft\Windows\CurrentVersion\Run\\ = “\tasksche.exe”
    • HKLM\SOFTWARE\WanaCrypt0r\\wd = “”
    • HKCU\Control Panel\Desktop\Wallpaper: “\@WanaDecryptor@.bmp”
  • Ele cria diversos arquivos no computador da vítima, incluindo os seguintes:
    • @Please_Read_Me@.txt
    • r.wnry
    • s.wnry
    • t.wnry
    • taskdl.exe
    • taskse.exe
    • 00000000.eky
    • 00000000.res
    • 00000000.pky
    • @WanaDecryptor@.exe
    • m.vbs
    • @WanaDecryptor@.exe.lnk

Que tipos de arquivo ele encripta na máquina infectada?

Ele procura todo o computador por qualquer arquivo com as seguintes extensões: .123, .jpeg , .rb , .602 , .jpg , .rtf , .doc , .js , .sch , .3dm , .jsp , .sh , .3ds , .key , .sldm , .3g2 , .lay , .sldm , .3gp , .lay6 , .sldx , .7z , .ldf , .slk , .accdb , .m3u , .sln , .aes , .m4u , .snt , .ai , .max , .sql , .ARC , .mdb , .sqlite3 , .asc , .mdf , .sqlitedb , .asf , .mid , .stc , .asm , .mkv , .std , .asp , .mml , .sti , .avi , .mov , .stw , .backup , .mp3 , .suo , .bak , .mp4 , .svg , .bat , .mpeg , .swf , .bmp , .mpg , .sxc , .brd , .msg , .sxd , .bz2 , .myd , .sxi , .c , .myi , .sxm , .cgm , .nef , .sxw , .class , .odb , .tar , .cmd , .odg , .tbk , .cpp , .odp , .tgz , .crt , .ods , .tif , .cs , .odt , .tiff , .csr , .onetoc2 , .txt , .csv , .ost , .uop , .db , .otg , .uot , .dbf , .otp , .vb , .dch , .ots , .vbs , .der” , .ott , .vcd , .dif , .p12 , .vdi , .dip , .PAQ , .vmdk , .djvu , .pas , .vmx , .docb , .pdf , .vob , .docm , .pem , .vsd , .docx , .pfx , .vsdx , .dot , .php , .wav , .dotm , .pl , .wb2 , .dotx , .png , .wk1 , .dwg , .pot , .wks , .edb , .potm , .wma , .eml , .potx , .wmv , .fla , .ppam , .xlc , .flv , .pps , .xlm , .frm , .ppsm , .xls , .gif , .ppsx , .xlsb , .gpg , .ppt , .xlsm , .gz , .pptm , .xlsx , .h , .pptx , .xlt , .hwp , .ps1 , .xltm , .ibd , .psd , .xltx , .iso , .pst , .xlw , .jar , .rar , .zip , .java , .raw

Como identificar se o WannaCry está tentando se espalhar pela minha rede?

Para tentar se espalhar, o WannaCry escaneia IPs da rede local e IPs válidos na Internet buscando pela porta TCP/445. Monitore quantidades excessivas deste tráfego e, principalmente, tentativas de sair para a Internet nesta porta.
Além disso, você pode monitorar tentativas de acesso ao domínio que ele usa como "kill stitch": www[.]iuqerfsodp9ifjaposdfjhgosurijfaewrwergwea[.]com




Tem assinatura do ataque para conseguir identificá-lo em um SNORT?

Sim, a IBM disponibilizou uma assinatura para o SNORT.

Tem assinatura do ataque para conseguir identificá-lo na ferramenta Netwitness da RSA?

Sim, é possível identificar facilmente o WannaCry através da Suite Netwitness. Pode-se bloquear os hashs conhecidos através do Netwitness Endpoint e também aplicar o segunte filtro no Netwitness Packets:
threat.source=rsa-firstwatch && threat.category=ransomware && threat.desc=wannacry

Adianta tentar bloquear os IPs dos servidores que o WannaCry tenta se comunicar?

Algumas empresas divulgaram uma lista de endereços IP dos servidores de controle do WannaCry. Eu acredito que não adianta bloquesr estes IPs, pois como ele usa a rede TOR para se comunicar com os seus servidores, ele pode usar qualquer endereço IP de entrada na rede TOR, que são IPs que variam frequentemente.

Adianta desligar a minha rede e meus computadores?

Há notícias de empresas que optaram por preventivamente destivar sua rede e desligar seus computadores para tentar conter ou evitar a infecção. Para ser sincero, não acho que elas estão erradas, pois isso evitaria a contaminação. Mas o mais importante mesmo é atualizar seus servidores e desktops Windows.
Você deve fazer uma parada emergencial programada no ambiente: primeiro desligar os dispositivos de redes dos usuários (rede física e Wifi) e começar atualizando os servidores. Depois vai religando as redes dos usuários parcialmente e força a atualização das máquinas conforme elas voltam ao ar.

O que fazer se os arquivos foram criptografados pelo WannaCry.

Tenha calma e não pague o resgate! Verifique quando vocês fizeram backup pela última vez e dê uma olhada no site do seu fabricante de antivírus e no site www.nomoreransom.org, para ver se há novas dicas ou ferramentas para recuperar seus arquivos.
NÃO baixe programas da Internet que prometem apagar o ransomware, a menos que sejam de fonte confiável.

Devo pagar o resgate para recuperar os arquivos criptografados pelo WannaCry.

NÃO!!! É concenso entre os profissionais de segurança que o resgate não deve ser pago!
Os principais motivos são que não há garantia nenhuma que você conseguirá ter acesso aos seus dados (pois pode acontecer do ciber criminoso não te dar a senha ou que esta senha não vá funcionar) e, além disso, fazendo assim você estará motivando o ciber criminoso a continuar prejudicando as pessoas.
O ideal é aguardar até que as empresas de segurança consigam descobrir como recuperar os arquivos. Converse com seu fornecedor de solução de antivírus.
Mas, cá entre nós, provavelmente o desespero vai bater e você ficará tentado(a) a pagar o resgate.

É possível recuperar os arquivos criptografados pelo WannaCry?

TALVEZ!!!
Desde a quinta-feira, dia 18/5, surgiram algumas ferramentas que permitem recuperar os arquivos encriptados, sem necessidade de pagar os ciber criminosos:
  • Wannakey - primeira ferramenta que surgiu, diz funcionar em Windows XP;
  • WanaKiwi - consegue recuperar os primos em Windows XP, 2003 (x86), Vista, 2008, 2008 R2 e Windows 7.
O principal problema é que estas ferramentas só funcionam se o computador não foi desligado nem reinicializado desde o momento em que foi infectado. Isso porque elas recuperam informações que são mantidas em memória.


Além disso, pesquisadores da Kaspersky anunciaram que descobriram algumas falhas no código do WannaCry que permite recuperar os arquivos originais:
  • Arquivos em folders "importantes" (como as pastas "Desktop" e "Documents") não podem ser recuperados, pois o WannaCry sobrescreve eles antes de apagá-los;
  • Arquivos em outras pastas nas pastas nos discos do sistema operacional são movidos para a pasta escondida "%TEMP%\%d.WNCRYT" (aonde %d representa um número) e depois apagadas, mas de forma que qualquer ferramenta de recuperação de arquivos pode conseguir recuperá-los;
  • Arquivos em discos que não são do sistema são movidos para a pasta “$RECYCLE” e configurados como "hidden+system". Devido a um bug, as vezes os arquivos originais podem ser recuperados por uma ferramenta de recuperação de arquivos;
  • Arquivos com restrição de acesso "ready-only" não são removidos, apenas escondidos no sistema operacional usando a flag de "hidden". Uma busca simples pode encontrá-los.

Quanto dinheiro já foi arrecadado pelos criadores do WannaCry?

Alguns pesquisadores criaram um site para monitorar quanto foi enviado para os criadores do WannaCry (monitorando 3 das carteiras de bitcoins deles): http://howmuchwannacrypaidthehacker.com

Esse ataque pode ser considerado um ato de "cyber guerra"?

NÃO!!! Isso não tem nada a ver com guerra cibernética, que é o conflito entre países ou ideologias. O WannaCry é um ransomware com objetivo de ganhar dinheiro através da extorsão. É um caso de crime cibernético.

Esse ataque foi direcionado a empresas de Telecom?

NÃO!!! Esse é um ransonware que tenta atacar qualquer computador vulnerável que ele encontre na Internet e na rede local. Há relatos de todo tipo de empresa sendo atacada em todo o mundo: banos, hospitais, escolas, empresas de telecom, etc. Não há um alvo específico!
Obviamente as grandes empresas (bancos, teles) são as mais afetadas pois costumam ter grande quantidade de computadores, e algumas vezes falham em mantê-los atualizados.

Qual é a principal lição que deveria ser aprendda com esse ataque?

Que devemos manter nossos sistemas sempre atualizados, aplicando os patches o mais rápido possível.


Há novas versões do WannaCry?

Sim, com certeza. Além de centenas de variantes, versões com assinatura MD5 diferente, já se fala do WannaCry 2.0, que não teria um "kill switch" (um domínio associado que faria parar a propagação dele). E vamos ver muitos malwares novos surgindo nos próximos dias, usando técnicas similares. Isso ocorre porque o código-fonte relacionado ao exploit utilizado tornou-se público. Logo, qualquer outro ciber criminoso pode adaptá-lo para seu malware.

Tem algum comentário ou meme que posso usar para trollar a galera?

Já tem várias piadinhas circulando por aí. Seguem algumas:
  • Use servidores Linux em vez de Windows.







O site Data Breach Today publicou uma FAQ bem interessante.

Nota: Post atualizado em 05/06.

maio 12, 2017

[Segurança] Ataque massivo do ransomware WannaCry em todo o mundo!

Nesta sexta-feira, 12/05, "sexta-feira dia da maldade", o dia amanheceu com várias notícias de que empresas em todo o mundo estão sofrendo ataques sérios de Ransomware., batizado de "WannaCry" ("Quero Chorar"), WannaCrypt ou Wcry. A notícia é real e merece atenção urgente de todos os profissionais de segurança.


Inicialmente as principais notícias falavam de empresas espanholas terem sido atacadas (veja o alerta do CERT na Espanha), mas há também notícias similares vindas da Europa e Ásia, incluindo Inglaterra, Italia, Portugal, Alemanha, Russia e China (que está sendo sendo atacada desde 11/5). Grandes empresas e órgãos de governo no Brasil também foram atacadas, e a lista só aumenta.


Ainda no primeiro dia (12/05) já se falava que a infecção pelo WannaCry tinha atingido pelo menos 74 países e continuava a se espalhar rapidamente. A origem do ataque ainda não foi confirmada, mas pelos relatos que eu li, me parece que o ataque do WannaCry começou na Rússia e China, depois seguiu para a Europa até chegar no Brasil e América Latina. Esse é um trajeto muito óbvio, na medida em que ele está seguindo o Sol: o ataque pareceu se expalhar na medida que os países amanheciam. Os EUA, por sorte, foram pouco afetados pois quando amanheceu por lá o resto do mundo já estava combatendo o WannaCry e já haviam descoberto o "kill switch" (mais detalhes abaixo).


Surgiram notícias de que a origem do WannaCry poderia estar ligada a um grupo hacker da Koreia do Norte. Eu, particularmente, acho isso um pouco improvável, pois se assim fosse, eles teriam evitado que o Ransomware atacasse a Rússia e, principalmente, a China. Ou será que ele foi criado na China?


Já é muito provável que praticamente todos os países do mundo já tenham sofrido com o ransomware WannaCry, e este incidente está sendo chamado de "a maior infecção de ransomware da história". O site MalwareTech disponibilizou dois mapas mostrando a evolução do ataque ao redor do mundo: um com estatísticas e mapa com todos os ataques e outro mapa com os ataques acontecendo em tempo real.


Não é a toa que teve extensa cobertura da mídia, especializada ou não.


Há notícias de centenas de empresas que foram infectadas ou que, para evitar a infecção, optaram por preventivamente destivar sua rede e desligar seus computadores.


Segundo várias fontes confiáveis, o ataque é causado pelo ransomware WannaCry (ou Wcry, WannaCryptor), que está explorando a vulnerabilidade MS17-010 (corrigida em Março deste ano, ela permite remote code execution em computadores com Microsoft Windows através do Server Message Block 1.0 - SMBv1) utilizando o exploit EternalBlue. Segundo a Forbes, "uma ferramenta vazada de NSA, um exploit do Microsoft Windows chamado EternalBlue, está sendo usado para espalhar rapidamente a variante de ransomware chamado WannaCry em todo o mundo".


A pesquisadora Amanda Rousseau, da Endgame, publicou um excelente artigo e infográfico descrevendo o processo de infecção do Ransomware WanaCry. Resumidamente, parafraseando o blog da Amanda, ele começa a infecção com um teste inicial ("beacon"), a função "kill switch" que ele verifica se pode continuar a infecção. Em seguida, ele tenta explorar a vulnerabilidade MS17-010 com o exploit EternalBlue (usando a implementação disponível no Metasploit) e se propagar para outros hosts. Em seguida que ele vai causar dano ao sistema, primeiro instalando o que necessita para causar os danos e ser pago para a recuperação, e após feito isso, o WannaCry começa a criptografar os arquivos na máquina.


Após infectar sua vítima, e antes mesmo de começar a criptografar os arquivos, o ransomware utiliza o protocolo SMB para infectar outras máquinas na mesma rede local e na Internet (ele gera endereços IP randômicos para tentar se espalhar pela Internet).


Uma vez infectada a máquina, ele encripta os arquivos e exige um resgate de 300 dólares, a serem pagos em bitcoins em, no máximo, 7 dias (o valor do "sequestro" aumenta para US$ 600 após as primeiras 72 horas). O WannaCrypt então mostra uma tela de aviso ao usuário de que seus dados estão "sequestrados" e troca o fundo de tela do desktop, além de disponiilizar um arquivo com instruções.


É interessante notar também que os casos anteriores que ouvi sobre Ransomware, os valores dos resgates estavam sempre em torno de 100 dólares. Ou seja, o preço de resgate exigido pelo WannaCry é mais caro do que o normal.

O grande segredo da rápida proliferação do WannaCry em todo o mundo e do desespero criado por ele está justamente na sua capacidade de se expalhar e de infectar suas vítimas muito, muito rapidamente. Ao contrário da maioria dos vírus que estamos acostumados hoje em dia, que se proliferam através de arquivos infectados compartilhados por mensagens de phishing (e, portanto, exigem que o usuário receba o e-mail, abra e baixe e execute o arquivo com o malware), o WannaCry se espalha automaticamente pela rede e utiliza um exploit para infectar automaticamente qualquer computador vulnerável, sem necessidade de nenhuma intervenção do usuário. A máquina é infectada sem que a vítima precise abrir e executar nada. Basta estar com o computador ligado (e vulnerável).

O interessante é que já fazem vários anos que não vemos uma grande infestação global por esse tipo de código malicioso, que chamamos de "worm" ("verme"). De fato, podemos dizer que temos algumas gerações de profissionais no mercado de segurança que não passaram pelo Code Red (2001), Ninda (2001), SQL Slammer (2003), Blaster (2003) e nem mesmo pelo Conficker, em 2008.

Veja algumas características desse ransomware que eu acho que são muito interessantes:
  • Como disse, ele é um ransomware que se comporta como um "worm", infectando novas vítimas automaticamente através da rede local e da Internet, sem necessidade de intervenção do usuário;
  • Ele usa rede TOR para se comunicar com os seus servidores de controle, o que dificulta muito a detecção e bloqueio dessa comunicação;
  • Ele continua encriptando arquivos enquanto está ativo. Se incluir algum novo arquivo na máquina infectada, ele será criptografado também;
  • Se alguém tenta extrair o executável do ransomware para análise, ele se auto-destrói;
  • O ransomware suporta 28 linguages diferentes, o que mostra o objetivo de seus autores de fazer uma infecção global!
  • Após infectar uma vítima, o WannaCry primeiro tenta invadir outras máquinas, e só depois ele começa a encripitar os arquivos. Isso é interessente pois, se ele primeiro fizesse o sequestro de dados, seria percebido pelo usuário antes que conseguisse se espalhar.
Dando uma olhada nas carteiras bitcoin (11...Ln, 1Q...iY, 13...94, 12...Mw) que eles aparentemente estão usando, até o momento poucas pessoas já pagaram o ransomware. As 15h40 do dia 12/05 constavam apenas 30 pagamentos. Isso é normal, pois as vítimas geralmente esperam até o último momento para pagar um ransomware, na expectativa de que vão descobrir como removê-lo - ou por conta da dificuldade de um usuário comum em comprar bitcoins.
  • Atualização: as 2am de 14/05 essas carteiras já tinham recebido 123 pagamentos e acumulado cerca de 20 bitcoins (mais de 30 mil dólares). Esse valor subiu para cerca de 25 bitcoins as 3:30am de 15/05;
  • Até 24/06, foram feitos 335 pagamentos, acumulando cerca de 51,9 bitcoins (mais de 142 mil dólares).


Quer saber quanto tem sido arrecadado com os resgates pagos pelas vítimas do WannaCry? Além do site "howmuchwannacrypaidthehacker.com", também foi criado um bot que a cada 2 horas publica no Twitter @actual_ransom o total de bitcoins (e dólares) pagos.


A partir da análise detalhada da Kaspersky e do SANS, junto com algumas informações da Microsoft, podemos destacar alguns indicadores do ataque (IOC):
  • Hash (SHA256) dos códigos executáveis (Esta é a lista original, pois já apareceram centenas de variações, com hashs distintos):
    • 09a46b3e1be080745a6d8d88d6b5bd351b1c7586ae0dc94d0c238ee36421cafa
    • 24d004a104d4d54034dbcffc2a4b19a11f39008a575aa614ea04703480b1022c
    • 2584e1521065e45ec3c17767c065429038fc6291c091097ea8b22c8a502c41dd
    • 2ca2d550e603d74dedda03156023135b38da3630cb014e3d00b1263358c5f00d
    • 4a468603fdcb7a2eb5770705898cf9ef37aade532a7964642ecd705a74794b79
  • Hash (MD5) dos códigos executáveis, segundo a Kaspersky (Esta é a lista original, pois já apareceram centenas de variações, com hashs distintos):
    • 4fef5e34143e646dbf9907c4374276f5
    • 5bef35496fcbdbe841c82f4d1ab8b7c2
    • 775a0631fb8229b2aa3d7621427085ad
    • 7bf2b57f2a205768755c07f238fb32cc
    • 7f7ccaa16fb15eb1c7399d422f8363e8
    • 8495400f199ac77853c53b5a3f278f3e
    • 84c82835a5d21bbcf75a61706d8ab549
    • 86721e64ffbd69aa6944b9672bcabb6d
    • 8dd63adb68ef053e044a5a2f46e0d2cd
    • b0ad5902366f860f85b892867e5b1e87
    • d6114ba5f10ad67a4131ab72531f02da
    • db349b97c37d22f5ea1d1841e3c89eb4
    • e372d07207b4da75b3434584cd9f3450
    • f529f4556a5126bba499c26d67892240
  • Após infectar a máquina, o ransomware tenta acessar o seguinte website:
    • www[.]iuqerfsodp9ifjaposdfjhgosurijfaewrwergwea[.]com
    • Foi encontrada uma variante que acessa outro domínio como "kill switch": ifferfsodp9ifjaposdfjhgosurijfaewrwergwea[.]com
  • Para tentar se espalhar, o WannaCry escaneia IPs da rede local e IPs válidos na Internet buscando pela porta TCP/445
  • Servidores de comando e controle escondidos na rede TOR:
    • gx7ekbenv2riucmf.onion
    • 57g7spgrzlojinas.onion
    • Xxlvbrloxvriy2c5.onion
    • 76jdd2ir2embyv47.onion
    • cwwnhwhlz52maqm7.onion
    • sqjolphimrr7jqw6.onion
  • Extensão de arquivo associadas ao ransonware: .WNCRY
    • Por exemplo, o arquivo "file.docx" é encriptado e renomeado para "file.docx.WNCRY"
  • Ao se instalar, ele cria o arquivo %SystemRoot%\tasksche.exe
  • Ao se instalar, ele cria o serviço mssecsvc2.0
  • Arquivo de aviso colocado no computador da vítima: @Please_Read_Me@.txt
  • Ele cria ou altera as seguintes chaves de registro no Windows:
    • HKLM\SOFTWARE\Microsoft\Windows\CurrentVersion\Run\\ = “\tasksche.exe”
    • HKLM\SOFTWARE\WanaCrypt0r\\wd = “”
    • HKCU\Control Panel\Desktop\Wallpaper: “\@WanaDecryptor@.bmp”
  • Ele cria diversos arquivos no computador da vítima, incluindo os seguintes:
    • r.wnry
    • s.wnry
    • t.wnry
    • taskdl.exe
    • taskse.exe
    • 00000000.eky
    • 00000000.res
    • 00000000.pky
    • @WanaDecryptor@.exe
    • m.vbs
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Diversos pesquisadores de malware encontraram a senha "WNcry@2o17" dentro do código do WannaCrypt, e rapidamente algumas pessoas começaram a especular que esta seria a senha para desencriptar os arquivos. Isso não é verdade! Esta senha é utilzada pelo ransomware para baixar seu payload: ele baixa um arquivo Zip protegido com ela.


Na verdade, o WannaCry utiliza o algoritmo de criptografia AES para criptografar os arquivos da vítima e para guardar essa senha de criptografia dos arquivos ele utiliza criptografia de novo, usando o algoritmo RSA com chave de 2048 bits. Além do mais, é muito pouco provável que essa senha servisse para desencriptar os arquivos pela própria natureza dos rasomwares modernos: eles criptografam os arquivos utilizando algoritmos e chaves de criptografia forte.

Segundo o post no MalwareReverse, foram encontradas chaves de criptografia no arquivo 00000000.pky, aonde fica a chave pública utilizada pelo ransomware e no 00000000.eky, que também é uma chave utilizada para encriptar os arquivos.

Algumas recomendações:
  • Antes de mais nada, mantenham seus computadores Windows atualizados, para evitar serem infectados pelo Ransonware. O patch e dicas de como remediar a vulnerabilidade estão dsponíveis desde Março deste ano;
  • Use servidores Linux e desktops / notebooks da Apple (muahahahahaha, desculpem, o espírito troll é mais forte do que eu);
  • Bloquear o tráfego SMB na sua rede e desabilitar o protocolo SMB em seus servidores e desktops, que utiliza as portas 137 e 138 UDP e as portas TCP 139 e 445. Este protocolo, relacionado a vulnerabilidade do MS17-010, jamais deveria trafegar pela Internet. Ele deveria ser bloqueado pelos Firewalls de borda e desativado em servidores que não precisam dele sempre que possível;
  • Não adianta tentar bloquear uma lista fixa de IPs associadas aos servidores de controle (C&C), pois o ransonware fala com os seus servidores através da rede TOR. Por isso é uma boa idéia bloquear ou monitorar o acesso das máquinas internas de sua rede para IPs externos associados a rede TOR. É possível baixar da Internet listas com esses IPs (são muitos, centenas ou milhares) A propósito, Kaspersky indicou, em seu blog, quais são os endereços desses servidores na rede TOR;
  • A Trend Micro, Kaspersky, Symantec e a McAffee já tem vacina para esse ransomware;
  • Um dos domínios que o malware usa para se comunidar já foi desabilitado e está resolvendo para um endereço IP inofensivo: www[.]iuqerfsodp9ifjaposdfjhgosurijfaewrwergwea[.]com. É interessante que esse domínio era um "kill switch" que os pesquisadores descobriram acidentalmente, por sorte nossa, ao registrar o domínio: após se instalar, o WannaCry tenta acessar esse domínio e, se consegue, ele interrompe a infecção;
  • Há várias histórias de empresas que estão desligando suas redes internas e seus computadores preventivamente, para evitar serem infectadas. Para ser sincero, não acho que elas estão erradas, pois isso evitaria a contaminação. Mas o mais importante mesmo é atualizar seus sistemas Windows.
    • A minha sugestão, nesse caso, seria fazer uma parada emergencial programada: primeiro desliga as redes dos usuários (rede física e Wifi) e atualiza os servidores. Depois vai religando as redes dos usuários parcialmente e força a atualização das máquinas conforme elas voltam ao ar (fácil de fazer se você tem gestão centralizada delas).
Desde a quinta-feira, dia 18/5, surgiram notícias de que pesquisadores de segurança começaram a descobrir falhas no WannaCry que permitissem recuperar os arquivos encriptados, sem necessidade de pagar os ciber criminosos. Uma falha nas bibliotecas de criptografia da Microsofr e no seu uso permitiu recuperar a chave de criptografia RSA a partir de dados armazenados em memória, em algumas versões do Windows.


Assim, surgiram rapidamente algumas ferramentas:
  • Wannakey - primeira ferramenta que surgiu, diz funcionar em Windows XP;
  • WanaKiwi - consegue recuperar os primos em Windows XP, 2003 (x86), Vista, 2008, 2008 R2 e Windows 7.
Estas ferramentas procuram pelos números primos utilizados para gerar a chave privada RSA no processo wcry.exe. Este programa, que faz parte do WannaCry, usa as funções CryptDestroyKey e CryptReleaseContext que, no Windows XP, apaga as chaves de criptografia da memória, mas mantém os números primos na memória antes de liberar a memória associada ao processo


Além disso, em Junho pesquisadores da Kaspersky anunciaram que descobriram algumas falhas no código do WannaCry que permite recuperar os arquivos originais, antes de serem encriptados:
  • Arquivos em folders "importantes" (como as pastas "Desktop" e "Documents") não podem ser recuperados, pois o WannaCry sobrescreve eles antes de apagá-los;
  • Arquivos em outras pastas nas pastas nos discos do sistema operacional são movidos para a pasta escondida "%TEMP%\%d.WNCRYT" (aonde %d representa um número) e depois apagadas, mas de forma que qualquer ferramenta de recuperação de arquivos pode conseguir recuperá-los;
  • Arquivos em discos que não são do sistema são movidos para a pasta “$RECYCLE” e configurados como "hidden+system". Devido a um bug, as vezes o arquivo pode não ser movido e é mantido na pasta original, e os arquivos originais podem ser recuperados por uma ferramenta de recuperação de arquivos;
  • Arquivos com restrição de acesso "ready-only" não são removidos, apenas escondidos no sistema operacional usando a flag de "hidden". Uma busca simples pode encontrá-los.

Especialistas em segurança são unânimes em dizer que as vítimas não devem parar o resgate exigido pelos donos dos Ransomwares. Isso principalmente porque não há nenhuma garantia que o ciber criminoso irá cumprir a sua promessa. No caso do WannaCry, há um outro problema: ele não tem um mecanismo para verificar automaticamente que a vítima depositou o dinheiro na carteira bitcoin, então os criminosos tem que validar manualmente os pagamentos e também realizar manualmente o comando para liberar os arquivos.

É importante ter em mente que, a partir de agora, a tendência natural é que o WannaCry vai evoluir e novos Ransomwares vão surgir baseados nele. De fato, além de já terem aparecido centenas de variantes dele (versões do executável com assinatura MD5 diferente), já se fala do WannaCry 2.0, que não teria um "kill switch". Além disso, dois outros códigos maliciosos já surgiram com funcionamento similar ao Wannacry: o ransomware UIWIX e o malware Monero, que invade computadores para minerar moedas digitais.

As forças policiais estão trabalhando em cima do caso. A polícia francesa anunciou que, poucos dias depois de começar o ataque, já tinha identificado e apreendido 6 servidores de saída da Rede TOR localizados na França e que foram utilizados para comunicação do Wannacry.



Para saber mais:






Nota: Vou continuar atualizando esse post conforme identifico mais informações relevantes. Post atualizado pela última vez no dia 31/10/17.

Nota2: Também escrevi um FAQ sobre o WannaCry, para resumir os pontos principais, já que este artigo está gigante.

maio 11, 2017

[Segurança] Anúncio de venda de dados

Em um grupo que participo no GoogleGroups, de repente entrou um spammer e postou alguns anúncios de venda de informações roubadas (como dados de cartões de crédito ou conta corrente) e alguns serviços relacionados ao ciber crime, como transferência de dinheiro.

É interessante ver a linguagem utilizada, alguns jargões (cvv, fullz, dumps, bin), os tipos de informações vendidas e os preços praticados. São "praxe" desse tipo de mercado. Por exemplo:
  • Os dados de um cartão de crédito podem custar a partir de US$ 10 (1 cartão americano) até US$ 45 (1 cartão europeu, com dados completos da vítima);
  • Os dados de uma conta corrente em banco podem custar a partir de US$ 150, aumentando o valor de acordo com o saldo da vítima;
  • Oa dados de login de uma conta no Paypal custa a partir de US$ 200;
  • Os precos variam de acordo com o tipo de informação, valor que pode ser transacionado (baseado no saldo do cartão ou da conta) e a localidade (ex: se o cartão de crédito é dos EUA, Inglaterra, Europa, etc);
  • O vendedor oferece desconto por quantidades maiores do que 30 e "garantia" dos dados rouados: se algum deles não for válido em até 10h depois da compra, ele fornece novos dados.
Veja o anúncio:
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. Balance 5000 GBP = 300$
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maio 09, 2017

[Segurança] Precisamos reconquistar nossa privacidade

Preocupado se algum dia conseguiremos conquistar a nossa privacidade online, eu apresentei na última CryptoRave uma nova versão da minha palestra sobre "A NSA e o fim da privacidade".




Fruto da hiperconectividade dos dias atuais, nós desenvolvemos uma dependência e um forte hábito de se expor exageradamente nas redes sociais. Ou seja, as nossas informações pessoais podem ser facilmente encontradas online, por qualquer pessoa, a qualquer momento.

Sabendo disso, governos e ciber criminosos exploram facilmente essa grande quantidade de informações online para identificar e rastrear pessoas. Frequentemente temos novas revelações sobre as capacidades quase ilimitadas de espionagem e vigilantismo da NSA e da CIA. O governo americano, em particular, tem como estratégia fazer uma captura irrestrita e indiscriminada de dados: para eles, é mais fácil capturar todas as comunicações e, conforme a necessidade, posteriormente procurar dados sobre pessoas específicas no meio dessa massa de dados capturada. Quer achar uma agulha num palheiro? Então leve o palheiro para casa.


Além disso, novos mega-vazamentos de dados pessoais são notícia comum e fazem a festa dos ciber criminosos, que tem dados pessoais de bilhões de pessoas a sua disposição para cometer fraude.

Nesse cenário, como poderíamos conseguir proteger a nossa identidade e nossa privacidade?


Há diversas tecnologias que nos ajudam a proteger nossa privacidade, desde ferramentas que utilizam criptografia para proteger a nossa navegação (TOR, SSL), nossos e-mails (GnuPG) e nossos arquivos, como ferramentas e plugins específicos para proteger nossa navegação online.

Entretanto, os usuários finais, leigos, raramente utilizam estas ferramentas. As vezes não basta criar ferramentas com melhor usabilidade, nem tentar educar os usuários, pois acredito que há uma mistura entre a dificuldade tecnológica (comum entre os usuários com mais idade), associada a necessidade de se super expor online (comum entre os jovens). Além disso há o "efeito manada": muitas das tecnologias para proteger a nossa privacidade exigem seu uso por todas as pessoas envolvidas no seu uso. Precisamos de uma adoção massiva para algumas ferramentas serem utilizadas. Não adianta, por exemplo, enviar um e-mail criptografado para uma pessoa que não tenha a mesma ferramenta para desencriptar a mensagem. Não adianta utilizar uma rede social ou um aplicativo de comunicação supostamente mais segura, se todos os seus amigos utilizam apenas o Facebook e Whatsapp.

Uma alternativa talvez seja criarmos identidades distintas, de acordo com a necessidade e uso - e evitar qualquer associação entre elas. Ou seja, dependendo do site ou serviço que utilizamos, poderíamos optar por colocar dados pessoais mais incompletos ou imprecisos. Poderíamos criar contas de e-mail distintas, uma principal e algumas secundárias ara uilizar em cadastros menos importantes. E ter uma conta de e-mail única e excusivamente para utilizar para recuperação de senha.

Na maioria dos sites e serviços que utilizamos, não há necessidade de nos cadastrarmos com nosso nome completo. Talvez só o primeiro nome e um sobrenome seria mais do que suficiente. Em alguns serviços, poderíamos nos cadastrar usando apenas um pseudônimo. Poderíamos evitar de fornecer nossos dados pessoais, como data de nascimento, RG e CPF, fornecendo números falsos ou errados. Por exemplo, ao utilizar um site que usamos muito esporadicamente, poderíamos nos cadastrar com um e-mail secundário e fornecer nosso nome incompleto.

Estas medidas acima são fáceis de serem adotadas e ajudam a proteger um pouquinho mais a nossa privacidade. Há uma pequena linha tênue entre proteger a nossa identidade e cometer um crime de falsidade ideológica (artigo 299 do Código Penal). Se o objetivo não é causar dano a ninguém, apenas proteger nossa identidade, não há crime.
Falsidade ideológica
Art. 299 - Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante:
Embora ocultar parcialmente nossas informações pessoais podem não ser suficientes para nos proteger contra uma organização profissional e aparelhada como os governos, ao menos elas podem nos ajudar muito contra o roubo criminoso de identidade. É muito comum que ciber criminosos usem informações encontradas online para tentar acessar outros sistemas que possam ser usadas por suas vítimas. Usam informações para tentar obter acesso usando, por exemplo, ataque de "password guessing" uma vez que vários usuários usam o mesmo e-mail e senha para vários cadastros. Ou usam nossas informações em golpes de engenharia social, como phishing sofisticados, tentar se passar pela vítima junto ao call center de uma empresa, etc.

Minimizando nossas informações online, dificultamos a vida dos governos e, principalmente, dos ciber criminosos.

maio 08, 2017

[Segurança] Vamos para a BSidesSP!

Nos dias 20 e 21 de Maio (Sábado e Domingo) teremos a próxima BSides São Paulo (BSidesSP), que chega na sua 14a edição.


Novamente o evento acontece na PUC São Paulo (Campus Consolação), sempre no mesmo esquema: algumas atividades no sábado (mini-treinamentos) e o evento completo acontecendo no Domingo, com diversas trilhas de palestras, oficinas práticas, Lightning Talks, a Hacker Carreer Fair e a BSides 4 Kidz (atividades de segurança e hacking para crianças).

Teremos algumas novidades para esta edição. A principal delas será que a nossa competição de “Capture the Flag” (CTF) terá 24 horas initerruptas de duração, no local. Pelo que eu me lembro, esta é a primeira vez que um evento brasileiro de segurança hospeda uma competição de CTF por 24 horas seguidas, quase uma maratona!!! O CTF vai começar as 15h do Sábado, 20/05, e vai até as 15h do Domingo, 21/05, madrugada a dentro. Teremos bebidas, energético e comida para os participantes.

As inscrições para a BSidesSP são gratuitas, mas temos vagas limitadas, por isso é bom não deixar a sua inscrição para o último dia! Já tivemos mais de 500 inscritos em menos de uma semana e as atividades do sábado, que tem limite de vagas por atividade, já estão lotadas.

A conferência Security BSides São Paulo (BSidesSP) é um evento gratuito sobre segurança da informação e cultura hacker, que será realizado em São Paulo, Brasil, nos dias 20 e 21 de Maio de 2017, no final de semana anterior ao evento You Sh0t the sheriff (YSTS). A BSidesSP tem o apoio da conferência AndSec, Cipher, Clavis, CryptoID, CTF.br, Daryus, Novatec e RoboCore e conta com o patrocínio da El Pescador, Trend Micro Brasil, e-Safer Consultoria e RSA Security.

maio 05, 2017

[Segurança] Lições de segurança do filme "Rogue One: Uma História Star Wars"

Aproveitando a passagem do "Star Wars Day", eu dedici, antes tarde do que nunca, comentar sobre algumas falhas e lições de segurança da informação que podemos aprender com o filme "Rogue One: Uma História Star Wars" (obrigado, CryptoID e Kaspersky).

Antes de prosseguir a leitura, sou obrigado a avisar: se você ainda não assistiu o filme "Rogue One: Uma História Star Wars", este post contem "spoilers" da estória.

Em poucas palavras, este filme conta cono aconteceu o roubo dos planos de construção da primeira Estrela da Morte. Os rebeldes invadem uma base Imperial, acessam o banco de dados do Império, encontram e roubam o projeto da Estrela da Morte, que contém uma falha de projeto que será utilizada futuramente para explodir a Estrela da Morte. Ou seja, o filme fica entre o fim a trilogia recente, dos anos 2000 (que termina no episódio III) e a trilogia clássica, dos anos 70 e 80 (que começa no episódio IV, o primeiro filme que inaugurou a franquia Star Wars).


Talvez esse seja um dos grandes charmes do filme: fazer a ligação entre essas duas trilogias, a clássica e a dos anos 2000. Melhor ainda: ele traz alguns detalhes bem interessantes da história da construção e destruição da Estrela da Morte. Melhor ainda: os produtores aproveitaram algumas cenas do filme de 1977 para fazer este filme.

Indo ao que interessa, no decorrer da saga Star Wars podemos encontrar diversas falhas de segurança da informação por parte do Império Galático, que em vários momentos são exploradas pelo pessoal da Aliança Rebelde. Pense, por exemplo, em quantas vezes nós vimos o R2D2 se conectando a qualquer entrada de dados em naves do Império e, aparentemente sem autenticação nenhuma, ter acesso total aos dados e sistemas de controle das naves.


No filme Rogue One não é diferente. Vejamos alguns exemplos:
  • Falta de controle dos ativos: Um dos prsonagens centrais do filme é o simpático dróide imperial K-2SO, que foi capturado pelos rebeldes e reprogramado pelo capitão da Aliança Rebelde, Cassian Andor, para que sirva aos rebeldes. O Império, pelo jeito, não possuía os dados do dróide, com suas informações e características (ex: número de série e histórico) nem tinha como rastrear o robô, e dessa forma perdeu a oportunidade de identifica-lo com facilidade. O robô, assim como um caça Tie Fighter capturado, foi utilizado pelos rebeldes para se infiltrarem na base do Império;
  • Falha em controle de acesso as instalações: No  momento em que o esquadrão rebelde viaja até Scarif com uma nave imperial roubada, o sistema de controle de entrada para o planeta não valida se a autorização via código de acesso da nave é válido, e assim uma nave roubada com rebeldes a bordo consegue permissão para entrar no planeta. Se o banco de dados do Império Galático fosse atualizado com frequência, eles saberiam que a nave utilizada era roubada e seu código de acesso estaria desabilitado;
  • Falhas de controle de acesso físico ao Data Center: Para roubar os planos de construção da Estrela da Morte, os personagens Jyn Erso e Cassian Andor acessam fisicamente a sala do servidor do Império Galático, aonde estão todos os dados de backup do Império. Sem controles de acesso físico rigorosos, eles não só tem acesso ao datacenter, como também tem acesso ao servidor de fitas de backup. Também faltaram controles adequados de identidade e autenticação forte, que poderiam ter impedido o acesso indevido as informações de aonde (qual fita) estavam os dados de backup. No final, eles conseguem roubar justamente a fita que contém os planos de construção da Estrela da Morte;
  • Ameaça Interna: Um dos pontos mais importantes da história é descobrir que o principal responsável pela construção da Estrela da Morte, o cientista Galen Erso, desenhou propositalmente uma vulnerabilidade crítica na estrutura que permitiria o acesso ao reator e, consequentemente, a sua destruição. Ou seja, essa "vulnerabilidade" foi implentada propositalmente por um funcionário descontente do Império (no início do filme vemos o Galen Erso sendo levado a força para trabalhar para o Império). Esta falha foi documentada nos planos de construção, para que pudesse ser descoberta pela Aliança Rebelde, e foi ela que permitiu a destruição da Estrela da Morte no Episódio IV da série de filmes;

  • Falha de auditoria de segurança durante o desenvolvimento: O império deveria ter feito uma auditoria de segurança na fase de planejamento, construção e inauguração da Estrela da Morte, o que poderia eventualmente descobrir a vulnerabilidade na estrutura que dava acesso ao reator. Talvez um Pentest poderia ter sido feito, ou deveria haver uma equipe de engenheiros designada somente para validar a segurança física e de perímetro da nova nave.

Sim, a história é hipotética, os comentários acima são engraçadinhos, mas pense quantos sistemas SCADA estão abertos na Internet (obrigado, Shodan) e quantas falhas de controle de acesso físico podemos encontrar em nossas empresas.

maio 04, 2017

[Segurança] 24 horas initerruptas de CTF !!!

Durante a próxima BSides São Paulo (BSidesSP), que acontece nos dias 20 e 21 de Maio na PUC São Paulo (Campus Consolação), será realizada uma competição de “Capture the Flag” (CTF) durante 24 horas initerruptas, no local.

Além das atividades que acontecem no Sábado e Domingo do evento, que incluem diversas trilhas com palestras, oficinas práticas, Lightning Talks e a BSides 4 Kidz (atividades de segurança e hacking para crianças), nesta edição o evento irá realizar sua competição de CTF em um modelo inédito, quase uma maratona: o CTF vai começar as 15h do Sábado, 20/05, e vai até as 15h do Domingo, 21/05, madrugada a dentro. Teremos bebidas, energético e comida para os participantes.


Esta edição do CTF da BSidesSP terá um mix de desafios no estilo "Jeopardy" (desafios no estilo pergunta e resposta que testam vários conhecimentos específicos) e com um ambiente simulado para ataque e defensa ("Cyber Range"). Ou seja, os competidores deverão testar seus conhecimentos em ambos os cenários.


O CTF da BSidesSP é fruto da colaboração e organização em conjunto da própria BSidesSP, com o projeto CTF.br e o professor Ricardo Tavares, da Daryus, além do apoio e patrocínio exclusivo da Trend Micro Brasil.

As inscrições para a BSidesSP são gratuitas, e os interessados em participar do CTF devem indicar isso no formulário de inscrições.

A conferência Security BSides São Paulo (BSidesSP) é um evento gratuito sobre segurança da informação e cultura hacker, que será realizado em São Paulo, Brasil, nos dias 20 e 21 de Maio de 2017, no final de semana anterior ao evento You Sh0t the sheriff (YSTS). A BSidesSP tem o apoio da conferência AndSec, Cipher, Clavis, CryptoID, CTF.br, Novatec e RoboCore e conta com o patrocínio da El Pescador, Trend Micro Brasil, e-Safer Consultoria e RSA Security.

OBS: Post atualizado em 07/05.

maio 03, 2017

[Cyber Cultura] Contagem regressiva para a Cryptorave 2017

Faltam poucos dias para a Cryptorave 2017, o maior evento aberto e gratuito no mundo sobre criptografia e privacidade, com 24 horas de conversas, trocas e aprendizagem na área de segurança de comunicação, criptografia e práticas de segurança e de proteção de dados pessoais.

Neste ano o evento mudou de lugar! A CryptoRave 2017 será realizada na Casa do Povo, em São Paulo (SP), no dia 5 e 6 de maio de 2017, a partir das 18h do dia 05/5 (sexta-feira) até às 19h do dia 06/5 (sábado), seguida por uma festa no Al Janiah, às 20h do dia 06/5 (sábado).

Recentemente eles lançaram um novo vídeo teaser da CryptoRave.


Para participar do evento, cadastre seu e-mail no site.

A programação já está no ar.

maio 02, 2017

[Segurança] Projeto OWASP Top 10 2017

O pessoal do projeto OWASP lançou recentemente uma nova versão da sua lista de 10 principais vulnerabilidades de aplicações web para 2017, conhecida simplesmente como "OWASP TOP 10". A lista divulgada este mês é uma "release candidate", ou seja, uma versão rascunho (quase final), e traz as vulnerabilidades mais críticas que podem ser encontradas em aplicações web. O documento categoriza e descreve cada uma delas, incluindo uma explicação do risco e suas formas de mitigação.

O projeto da lista "Top 10" foi lançado inicialmente em 2003, com o objetivo de conscientizar sobre segurança em aplicações web através da identificação dos riscos mais críticos. A última versão, de 2013, também está disponível em Português.

Para 2017, a lista "OWASP Top 10 Most Critical Web Application Security Risks" (nessa versão "Release Candidate") é formada pelas seguintes categorias de ataques:
  • A1 Injection
  • A2 Broken Authentication and Session Management
  • A3 Cross-Site Scripting (XSS)
  • A4 Broken Access Control
  • A5 Security Misconfiguration
  • A6 Sensitive Data Exposure
  • A7 Insufficient Attack Protection
  • A8 Cross-Site Request Forgery (CSRF)
  • A9 Using Components with Known Vulnerabilities
  • A10 Underprotected APIs
O blog SegInfo destacou que essa nova versão apresenta duas novas categorias de ataques:
  • A7 – Insufficient Attack Protection: A maioria das aplicações e APIs não possuem qualquer capacidade de detectar, prevenir e responder a ataques manuais e automatizados. A proteção contra ataques vai muito além da validação de entradas e envolve detecção, registro, resposta e até mesmo bloqueio de tentativas de invasão. Além disso, as empresas também precisam ser capazes de implantar correções rapidamente para proteger contra ataques;
  • A10 – Underprotected APIs: As aplicações atuais geralmente disponibilizam APIs e utilizam APIs externas, tais como aplicações rich client, como JavaScript no navegador e aplicativos móveis, que se conectam a algum tipo de API (SOAP/XML, REST/JSON, RPC, GWT etc.). Estas APIs são frequentemente desprotegidas e contêm inúmeras vulnerabilidades. A popularização do uso de APIs tornou necessário promover esse assunto a um tópico exclusivo na lista de Top ameaças. 
A imagem abaixo indica o que mudou da versão 2013 para a nova do OWASP Top 10:


O uso de "listas de principais assuntos" sempre gera uma certa polêmica, ainda mais na área de segurança, que adora polemizar com tudo. Há aqueles que defendem que ese tipo de lista simplifica muito o problema e causa uma certa "miopia" no mercado, que foca em apenas alguns tópicos em vez de tratar todo o problema. Mas, por outro lado, como a quantidade de alvos potenciais na Internet é muito grande, e como prevalece a existência de sites e serviços vulneráveis, qualquer pessoa que fizer o básico já estará muito mais protegida que a grande maioria. Em minha opinião, esse tipo de lista serve, inicialmente, para educar e dar um norte sobre as principais ações a serem focadas em um primeiro momento, Elas representam o nível mínimo de segurança que qualquer um deveria ter.

O Open Web Application Security Project (OWASP) é um projeto muito interessante para quem se interessa por segurança no desenvolvimento de software, e para quem já é especialista em uma área (Segurança ou Desenvolvimento) e quer ter um entendimento sobre a outra. Eles são uma comunidade aberta, dedicada a capacitar as organizações a desenvolver, adquirir e manter aplicações confiáveis. Eles tem diversos projetos que são tocados por voluntários de todo o mundo.
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